Opinião: A encruzilhada de Dr. Aluízio

Por André Luiz Cabral 17/04/2017 - 12:38 hs

A citação de pessoas ligadas diretamente ao prefeito de Macaé na última delação da Odebrecht coloca, pela primeira vez desde quando assumiu o governo em 2013, Dr. Aluízio em uma posição delicada. Com a pressão do noticiário, das redes sociais e a consequente chantagem do poder Legislativo (principalmente dos vereadores “da base” oportunamente em busca por mais cargos e espaço na administração) tiraram, completamente, o prefeito de sua zona de conforto. Para conter a crise é preciso agir, caso contrário a situação pode fugir completamente ao controle.

 

Dr. Aluízio assumiu a prefeitura com uma votação recorde e conduziu um sem número de mudanças estruturais na forma de se fazer política na cidade. Seu legado não ficou marcado por pontes ou obras faraônicas, mais sim pela forma mais austera e corajosa de lidar com a administração pública. Não há como negar os avanços obtidos com a instalação do ponto biométrico, com o corte de milhares de assessorias (reduzindo de 2,5 mil para cerca de 800 atualmente) e com o Portal da Transparência. Esta “obra” deu um aspecto de moralidade e seriedade que Macaé jamais experimentara. E esta sensação fez que o prefeito se reelegesse sem ao menos fazer campanha. Foram quatro ou cinco caminhadas apenas. Porém, os últimos quatro anos fizeram ele ter a reeleição mais fácil (e provavelmente mais) barata da história recente de Macaé.

 

Mas, como todo bom marinheiro sabe, mares calmos nunca fizeram bons capitães. E, talvez, a facilidade do prefeito em administrar as crises que surgiram (com um telefone nas mãos e uma ideia na cabeça) possam ter dado a ele uma falsa sensação de invencibilidade. Não há como negar que ele é um craque na comunicação e que seu iPhone tem comunicado com muito mais efetividade do que o jornal mais antigo da cidade que, pela birra de não receber mais aquele caminhão de dinheiro público, insiste em linchar sua imagem. Dr. Aluízio é bom, aliás, ótimo com a comunicação interpessoal. Mas isso não basta e não bastará para safá-lo da ventania que se aproxima.

 

Ninguém é puro, santo, e tampouco inocente na política. E, para vencer e sobretudo governar, o prefeito teve que fazer alianças. A mais questionável delas, é claro, foi com o PMDB de Cabral. Porém, a aliança com o PMDB foi o pior de seus pecados. Na verdade, faltou coragem para mudar em vários aspectos. Um deles foi em ainda depender da velha e apodrecida classe política da cidade. Nestas últimas eleições, o prefeito, com tantos votos e influência teve a chance de eleger uma Câmara completamente nova, com quadros que oxigenariam o poder e poderiam dar, no futuro, uma opção clara de continuidade de um projeto político. Porém o conforto, mais uma vez, foi seu inimigo e seus aliados (que na verdade são aliados do poder e não dele) se reelegeram mais uma vez para o quarto, quinto, sexto mandato. Qual o resultado disso: chantagem por cargos e pressão por espaço político. Nunca se viu, na história de Macaé, um Legislativo tão medíocre onde vereadores aliados fazem pirraça porque não conseguem o que querem.

 

Mas, o Legislativo está longe de ser o seu maior problema. Talvez, por seu tão bom no que faz, o prefeito não tenha percebido a péssima qualidade de quem está à sua volta. Por melhor que você seja como político, você precisa de gente qualificada o seu lado. Por mais confiança que um motorista ou jardineiro possa ter, isso não torna ninguém qualificado para a coisa pública. Merecimento e qualificação são coisas distintas. E administração, seja pública ou privada, não pode ser sorteada por mérito como se fosse uma “ação entre amigos”. Administração é lugar para gente inteligente. E, infelizmente, pelo que se percebe, o prefeito tem sido uma mente solitária no meio de uma multidão de acéfalos, bajuladores e medíocres. Abro um parêntese aqui sobre a Câmara. Se o Legislativo é leniente e chantagista, o executivo municipal é ainda pior. Porque, além de faltar competência, eles sequer tem votos. Como disse o presidente da Câmara recentemente, o prefeito se elegeu sem precisar do voto de nenhum secretário. E pela primeira vez na vida tenho que admitir: ele está coberto de razão.

 

Ninguém sabe como esta crise vai se desenrolar nos próximos meses. Mas uma coisa é certa: para manter sua credibilidade, tanto na classe política, quanto na população o prefeito terá que fazer mudanças. Às vezes, é preciso perder a mão para não perder o braço. E, como cirurgião talentoso que é, o prefeito sabe muito bem que é necessário amputar alguns membros antes que o corpo inteiro necrose.

 

 

André Luiz Cabral – jornalista e teólogo