“Mais uma vez o povo contra o povo”: as vozes das favelas na primeira semana da intervenção no Rio

“Mais uma vez o povo contra o povo”: as vozes das favelas na primeira semana da intervenção no Rio

Por Jornal Expresso 24/02/2018 - 11:39 hs

São onze da manhã, uma sexta-feira que deveria ser como outra qualquer na Vila Kennedy. Um barbeiro na calçada faz tranquilamente a barba de um homem. Jovens com uniformes de escola e trabalhadores de bicicleta passam pela rua. Aposentados bebem cerveja e jogam sinuca. Mas o exército avança lentamente com seus fuzis, tanques e jipes pelas largas ruas dessa comunidade do Rio de Janeiro. Mães com filhos em volta observam curiosas da porta de casa. Algumas crianças chegam a acenar. Na porta de um comércio de esquina, quatro amigos conversam. Entre eles está Wellington, um rapaz negro de 33 anos. "Enquanto eles não tirarem meu direito e ir vir, está tudo certo. O Exército não tem vínculo com a comunidade, então pode ser melhor que a polícia. Mas isso aqui não vai dar certo não", comenta, enquanto uma escavadeira das Forças Armadas retiram blocos de ferro e concreto presos no chão. Serviam de barricadas, instaladas ali por traficantes de drogas que dominam a comunidade, para impedir o avanço da polícia.

Apesar das tropas ainda estarem oficialmente agindo dentro do decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), em vigor desde julho passado, a intervenção federal decretada pelo presidente Michel Temer (PMDB) já é uma realidade para Wellington e outros moradores de favelas do Rio. Além da Vila Kennedy, 3.200 homens e mulheres das Forças Armadas e da Polícia Civil também estiveram nas vizinhas Vila Aliança e Coreia nesta sexta. O saldo foi de 27 pessoas detidas. Na terça estiveram na comunidade Kelson (Zona Norte), onde detiveram quatro, e em rodovias. Já outras favelas, como o Complexo da Maré e o Dona Marta, viveram tiroteios entre policiais e traficantes. A crise de segurança, que resultou na morte de 6.731 pessoas no ano passado do Rio — uma taxa de 40 mortes por 100.000 habitantes — segue em pleno vapor.

Se por um lado o Governo Temer pretende com a intervenção federal disfarçar o fracasso da reforma da Previdência e tentar angariar apoio da sociedade em ano de eleições, por outro disparou o alarme em setores da sociedade. Nas redes sociais, um vídeo que falava sobre quais precauções os negros devem ter durante a intervenção viralizou. A ONG Anistia Internacional, uma das principais defensoras dos direitos humanos no mundo, lançou uma dura mensagem a respeito do decreto. "Acreditamos que é uma medida inadequada e extrema que coloca em risco a vida da população", argumentou Jurema Werneck, diretora-executiva da organização no Brasil, durante a apresentação do relatório anual da organização. Lá estava Glaucia dos Santos, uma moradora do Complexo do Chapadão que perdeu um filho no réveillon de 2014, vítima de violência policial. Ela expôs seus temores: "Mais uma vez o nosso velho estado colocando o povo contra o povo. Se meu filho não tivesse sido assassinado, ele estaria na intervenção. Quem faz a intervenção, os militares, também são jovens da favela. Como ficam esses jovens? Como ficam suas mães?", questionou. 

"Se for pra entrar aqui e ir embora logo, vai voltar ficar como estava"

A Vila Kennedy é um bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro que tem ruas largas e casas simples. Foi inaugurado como um conjunto habitacional em 1964 pelo governador Carlos Lacerda para reassentar famílias que viviam em favelas da nobre Zona Sul. Maria chegou nessa época, quando tinha apenas três anos. "No início a gente podia dormir do lado de fora, não tinha essa guerra", lamenta ela. A 40 quilômetros do centro, a comunidade foi abandonada à própria sorte pelo Estado e, ao longo do tempo, foi se favelizando e sendo ocupado pelo crime organizado. "Se for pra entrar aqui e ir embora logo, vai voltar ficar como estava. Isso é enxugar gelo, então é melhor nem entrar".