A primera transexual na Superliga feminina de vôlei, entre a ciência e o preconceito

Por Jornal Expresso 28/01/2018 - 18:43 hs

Um furacão, dentro e fora das quadras. Assim pode ser definida a trajetória tão recente quanto arrebatadora da ponteira Tifanny Abreu pelo vôlei brasileiro. Ela é a primeira mulher transexual a disputar a Superliga feminina, mas, além de levantar o debate sobre uma possível vantagem que levaria sobre outras atletas, seu pioneirismo não passou imune a manifestações de preconceito. Mensagens discriminatórias nas redes sociais se misturam a teses pretensamente científicas que insinuam um suposto oportunismo da atleta, como se jogar com mulheres cisgênero fosse uma escolha para sobressair pela imposição física. “Não tem nada de errado no que faço. Estou dentro das regras do esporte”, rebateu Tifanny após sua primeira exibição pelo Bauru.

De fato, o regulamento da Federação Internacional de Voleibol (FIVB), em conformidade com diretrizes aprovadas pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) em 2015, permite a participação de transexuais em competições oficiais. Não há sequer a exigência da cirurgia de mudança de sexo. No caso das mulheres trans, é preciso comprovar um nível de testosterona (hormônio masculino)abaixo de 10 nanomols por litro de sangue para competir na categoria feminina. A atleta só pode defender uma equipe após manter esse índice por pelo menos 12 meses consecutivos e, depois de estrear, deve passar por monitoramento frequente do nível de testosterona. Aos 33 anos, Tifanny cumpre os requisitos. Ela concluiu o processo de transição de gênero em 2015 e atualmente registra em torno de 0,2 nanomol de testosterona por litro de sangue.

Terminada a transição, como esperado em casos desse tipo, a atleta perdeu força muscular, resistência e velocidade devido ao tratamento hormonal. A impulsão, segundo ela, teria sido um de seus fundamentos mais afetados. Entretanto, boa parte da comunidade médica e especialistas do esporte entende que apenas o controle do nível de testosterona não é suficiente para colocá-la em pé de igualdade – ao menos no aspecto físico – com as outras atletas cisgênero. Como a transição de gênero só foi iniciada quando ela já tinha quase 30 anos, seu corpo se desenvolveu a partir da composição fisiológica masculina. Um diferencial que o tratamento hormonal, apesar das consideráveis perdas de testosterona, seria incapaz de anular. “Se tivesse feito o tratamento para a mudança de sexo mais cedo, ela provavelmente teria menos vantagens físicas em relação às demais atletas”, afirma a médica do esporte Karina Hatano.